Artigo

COMO ANDA A TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO?

Em Petrolina e Juazeiro, “uns dias chove, outros dias bate sol”

Na quarta-feira da semana passada, enquanto eu batalhava para fazer o semiárido mais produtivo, o Supremo Tribunal Federal (STF), sim, aquele presidido por douta senhora grisalha, com voto de desempate do decano, Celso de Mello, dava o cano nos ambientalistas e decidia por conceder anistia para sanções sofridas por produtores rurais em função de desmatamento ilegal realizado antes de julho de 2008. Por quê? Eram inocentes bebês de colo na época?

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Os itens compensatórios que atendem ao Cerrado e à Caatinga são mentiras, pois não existe aparelho de fiscalização para tal. Estender os benefícios da agricultura familiar aos índios e quilombolas é nada, pois já não existem mais depois que o Ministério do Desenvolvimento Agrário virou uma mixórdia.

Alguém me envia a voz de Alexandre Garcia, sendo entrevistado e defendendo a decisão do STF, citando o blábláblá ruralista de sempre “essa gente esforçada que nos alimenta e os jovens que acham que os produtos agrícolas nascem nas gôndolas dos supermercados”. Jornalista? AG? Sempre o tomei como mordomo da família Marinho. Prepara ótimos drinques e sabe escolher a gravata adequada para seus patrões.

O País está sendo, rapidamente, aniquilado.

Vale do São Francisco

Pelo menos três vezes ao ano, negócios me levam a Petrolina (PE) e Juazeiro (BA). Não só, mas, principalmente, pelos amigos que tenho lá, e me fazem unir as duas “rivais”, cantando Elba e Geraldinho Azevedo, pois também eu adoro as duas cidades. Junte-se a isso o pessoal da TV Grande Rio que promove, anualmente, entre março e maio, a Copa de Futsal, disputada por várias escolas e cidades do Vale do São Francisco e outras do sertão do semiárido, em evento esportivo e educativo louvável.

Como? Não falei dos espetos de rins de bode, da carne-de-sol, que gosto mal passada, da macaxeira e o feijão verde, do surubim e do cari, da beleza das sensuais meninas? Lamentável. É que ando meio acanhado com a pouca exposição onde escrevo com textos galhofeiros. Hoje em dia, todos andam sisudos e scholars a resolverem o Brasil sem o conhece-lo. Profundo e diverso.

Vejam, triste, quase esqueço de citar que a melhor picanha suína, conforme meu amigo Aldemir, da Seiva do Vale, está em Santa Maria da Boa Vista, município a 100 quilômetros de Petrolina e população de 40 mil habitantes. Se em andanças por lá, recomendo.

O Velho Chico

Fui para lá sob impacto do que folhas e telas cotidianas falavam por aqui. Inclusive, do honesto Globo Rural (TV). Questionava-se, meio que sobre o muro, a situação hídrica da região e a transposição.

Cabreiro que sou, na chegada, logo fui me informando com o taxista. Sua conversa, incansável e ininterrupta (ótimo), logo me lembrou de Chico Buarque escrevendo para Augusto Boal: “uns dias chove, outros dias bate sol (…), mas a gente vai levando”.

O Brasil é assim mesmo, e “Se você não concordar, vou pegar minha AK-47, deixar você de lado, metralhar em outro lugar” (sobre ‘Disparada’, de Vandré).

O rio e a transposição

Nada na região é completamente previsível. Pode chover cântaros em Cabrobó, Pilão Arcado, Casanova, e nada em Juazeiro/Petrolina. Ou vice-versa. Nas demais regiões do semiárido, claro, algumas serão mais afetadas do que outras. Para os sertanejos menos afortunados é coisa de Deus e seu auxiliar Padim Ciço. Para o estadista Jair Bolsonaro, falta armar o povo e atacar mandacarus.

A falta de chuvas perdurou na região pelos últimos cinco anos, fato inédito há mais de seis décadas.

No final de 2017 e início de 2018, choveu tanto na região que causou grandes prejuízos à agricultura e mesmo aos centros urbanos, o que elevou ao máximo o nível do rio e fez as autoridades aquíferas Compesa, Chesf e ANA diminuírem a vazão das barragens.

Hoje, diante do baixo nível do rio em certos trechos, inclusive Petrolina e Juazeiro, a reversão foi revista, e o nível já aumentou para 23%. Precisa mais, o que depende de chuvas em Três Marias (MG) para alimentar Sobradinho e, daí em diante, o rio e as necessidades da transposição.

A volta das chuvas regulares e a abertura para vazão das barragens, já fez Sobradinho sair dos 2% para 23%. Todos salvos.

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Na conversa com os mais miúdos fala-se do privilégio de a água servir nas cidades os bairros mais nobres e nas plantações os maiores proprietários.

A transposição, pensada por D. Pedro II, e transformada em projeto de Lei, por Getúlio Vargas (sempre ele!), em 1943, visava percorrer 700 quilômetros, entre os estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Cálculos honestos afirmam que o projeto, além de permitir vida às populações ribeirinhas e permitir a criação de novos polos agrícolas à semelhança dos existentes em Petrolina e Juazeiro.

Nesse ponto, Ciro Gomes foi firme. Em outros não opino. Mas, insensíveis bestas que combatem a transposição se valem de argumentos como: evaporação, vazamentos em canais, túneis e aquedutos, infiltração no solo. Então tá, em que rio, riacho, córrego, laguinho, nas várias propriedades rurais isso não acontece em se tratando de água?

Quiçá o trecho do Tietê e do Pinheiros, ao cruzar a capital de São Paulo, tivessem o total de suas águas esgotadas, e continuassem quando límpidas ficassem.

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farnesio

farnesio

Petrolinense/Juazeirense de Arapiraca-Alagoas, é radialista com passagens pelas Rádios Jornal do Comércio de Garanhuns e Petrolina, Novo Nordeste de Arapiraca, Emissora Rural, Grande Rio AM e FM de Petrolina, Radio Cidade, Nova Indy e atualmente é âncora do Programa Bastidores da Notícia na Rádio Tropical SAT/FM de Juazeiro e editor do BlogQSP.