Artigo

CARTA DE NOVA YORK: BOLSONARO VISTO DO LADO DE FORA

Três esclarecimentos:

Primeiro, eu moro em Nova York, por isso o título da minha coluna é “Cartas de Nova York”; e como ensino História do Brasil na Brown University, eu moro também em Providence, Rhode Island. Isso significa ir e vir entre duas cidades toda semana. (Explicarei as razões em outro momento).

Segundo, no último sábado, eu participei com um grupo de brasileiros e americanos em um protesto #EleNão na praça central (Main Green) em Brown. Depois fui para Boston com colegas para outra manifestação em Harvard.

Três, eu não gosto de Bolsonaro.

Deixe-me explicar o meu lugar de fala.

Aceitei o fato de ser gay em 1973, logo depois de terminar a faculdade. Quando morei em São Paulo, no final dos anos 70, fui fundador da ala esquerda do Movimento Homossexual em São Paulo, como chamamos na época. Considero-me parte da esquerda desde os treze ou catorze anos de idade. Então, eu não gosto de Bolsonaro, e tenho certeza de que ele não gostaria de mim se nos conhecêssemos. Sendo mais preciso: não é a pessoa que eu não gosto, mas sim sua política.

Na semana passada, pelo menos cinco veículos de comunicação em inglês entraram em contato comigo, pedindo que eu explicasse as eleições brasileiras. The Guardian foi o mais recente. Como apontei nas Cartas de Nova York anteriores, Bolsonaro é pior que Trump, se é que se pode imaginar isso.

A nova analogia que estou usando para o público americano é a imagem de George Wallace. Durante as décadas de 1950 e 1960, Wallace foi governador do estado de Alabama, e quando o governo federal ordenou a integração de escolas públicas, ele se recusou a permitir que os negros estudassem com os brancos. Em 1963, em seu discurso de posse, ele proclamou: “segregação agora, segregação amanhã, segregação para sempre”.

Wallace era bastante popular no Sul e em outras partes do país por suas posições racistas e não apenas entre membros e apoiadores da Klu Klux Klan. Ele tinha amplo apoio entre os brancos que temiam as mudanças que o Movimento dos Direitos Civis trouxe para o país.

Em 1968, ele concorreu à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Independente Americano, ganhando a maioria dos votos em cinco estados do Sul: Arkansas, Louisiana, Alabama, Mississippi e Geórgia. Wallace recebeu 9 milhões de votos ou 13% do total. Nixon acabou vencendo aquela eleição e foi reeleito quatro anos depois. Ele renunciou ao cargo em 1974 para evitar uma votação final de impeachment. Nixon foi um presidente horrível, que apoiou a derrubada militar de 1973 do governo de Salvador Allende no Chile, mas Wallace teria sido 100 vezes pior.

Não estou tentando tirar nenhuma analogia para dizer que Bolsonaro será 100 vezes pior do que qualquer coisa que os eleitores anti-PT possam imaginar.

Em vez disso, de longe, o Brasil parece estar em uma encruzilhada. Na minha opinião, esta é a eleição mais importante da história do Brasil. Um brasileiro como George Wallace pode se tornar o próximo presidente do país. Isso é assustador.

Fica evidente que a Rede Globo e o Jornal Nacional vão apoiar Bolsonaro no segundo turno das eleições. Qual é o olhar de fora sobre “o coiso”?

Assim como a Folha de São Paulo, o Financial Times de Londres vê a eleição brasileira como uma disputa entre a extrema direita e a extrema esquerda. No entanto, eles não estão convencidos de que Bolsonaro irá responder ao que eles consideram as principais prioridades do Brasil.

“Os investidores esperam que o próximo presidente seja capaz de implementar duras reformas fiscais para reviver a maior economia da América Latina, mas muitos analistas duvidam que os principais candidatos tenham a vontade ou a capacidade de fazê-lo”, afirma o Financial Times.

Não é de surpreender que a cobertura do Wall Street Journal sobre os comícios de #EleNão no Brasil ofereça uma visão “equilibrada” dos rallys anti e pró-Bolsonaro, avaliando que eles tiveram o mesmo tamanho e magnitude. Ao apontar as controversas posições de Bolsonaro, no final do artigo, os jornalistas, sediados no Brasil, enfatizam o apoio do Partido dos Trabalhadores à Venezuela. A implicação é clara: votar em Haddad significa que o Brasil acabará como seu vizinho ao norte.

A imprensa liberal norte-americana, decididamente anti-Trump, está mais preocupada com uma vitória de Bolsonaro, como se poderia imaginar. Em artigo recente “Um Olhar para os Comentários Ofensivos do candidato brasileiro Bolsonaro”, escrito pelo serviço de notícias Associated Press e publicado no New York Times e no Washington Post, os comentários homofóbicos, racistas e misóginos de Bolsonaro são repetidos para o leitor, e ele é retratado como um político de extrema direita.

No entanto, a cobertura mais curiosa do último mês foi a da revista Economist. Durante a presidência de Lula, a revista elogiou o sucesso econômico do Brasil. Isso foi seguido por uma série de artigos e capas sobre diferentes questões, mostrando um país em crise. Embora os editores não tenham sido amigos da esquerda, talvez haja maior preocupação em relação ao ex-capitão do exército.

A manchete do artigo de 20 de setembro da revista Economist sobre as eleições brasileiras foi muito clara: “Jair Bolsonaro, a mais recente ameaça da América Latina”. Sua previsão: “Se ele vencesse, poderia colocar em risco a própria sobrevivência da democracia no maior país da América Latina”.

The Economist é um bastião do liberalismo clássico que defende os mercados livres, uma rede de segurança social e a liberdade pessoal. Em geral, seus leitores no Brasil apoiam o PSDB.

No entanto, as preocupações da revista parecem ser muito maiores que as dos liberais clássicos da capital brasileira: “Em vez de caírem pelas promessas vãs de um político perigoso na esperança de resolver todos os seus problemas, os brasileiros devem perceber que a tarefa de curar sua democracia e a reforma de sua economia não será nem fácil nem rápida … São necessárias muito mais reformas. O senhor Bolsonaro não é o homem que a fornecerá”.

Há muitas maneiras de interpretar essa posição editorial, a mais óbvia é simplesmente que mesmo aqueles com uma ideologia neoliberal entendem o perigo de permitir que um Bolsonaro controle o país. #EleNão!

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farnesio

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Petrolinense/Juazeirense de Arapiraca-Alagoas, é radialista com passagens pelas Rádios Jornal do Comércio de Garanhuns e Petrolina, Novo Nordeste de Arapiraca, Emissora Rural, Grande Rio AM e FM de Petrolina, Radio Cidade, Nova Indy e atualmente é âncora do Programa Bastidores da Notícia na Rádio Tropical SAT/FM de Juazeiro e editor do BlogQSP.