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Cultura sob ataque: covardia da elite brasileira alimenta a volta da censura

*Ricardo Kotscho – 

O último lance foi a criação de um sistema de censura na Caixa Cultural: “Agora, com a volta oficial da censura à luz do dia, decretada pelo bolsonarismo nas empresas estatais, a covardia da elite brasileira pode asfixiar também o financiamento privado de projetos culturais por meio da Lei Rouanet”

Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia –

A temida censura está de volta, como já era de se esperar. Bastaram nove meses de gestação.

Os liberais e neoliberais brasileiros sempre foram gigolôs do Estado e, por isso, morrem de medo de desagradar o governo de plantão.

Agora, com a volta oficial da censura à luz do dia, decretada pelo bolsonarismo nas empresas estatais, a covardia da elite brasileira pode asfixiar também o financiamento privado de projetos culturais por meio da Lei Rouanet.

“Melhor não”, era o bordão que eu costumava ouvir de um diretor do Estadão, depois da saída da censura, em meados dos anos 1970, quando propunha alguma reportagem, vamos dizer, mais polêmica, que pudesse incomodar os generais no poder.

O medo da volta da censura instalava a autocensura nas redações, de onde nunca mais sairia.

Temos agora no comando um ex-capitão mequetrefe, afastado do Exército aos 33 anos, que quer reviver 1964 em 2019. Não é só o corte da publicidade oficial de governo que ameaça os veículos de mídia, mas também o temor dos anunciantes de empresas privadas aliadas do bolsonarismo.

O índice de otimismo dos empresários com a economia, que era de 89,3%, em dezembro, quando se dizia que bastava impedir a volta do PT ao governo, que tudo ia melhorar, já caiu pela metade (41,4%), segundo a última pesquisa da Fundação Getúlio Vargas. Nada deu certo, então é preciso dobrar a aposta.

“Caixa cria sistema de censura prévia a projetos culturais – Relatórios de seleção devem informar o posicionamento político e conduta de artistas em redes sociais”, informa a manchete da Folha neste sábado.

Segundo a reportagem ouviu de funcionários da Caixa Cultural, “as regras permitem perseguição aberta a certas obras e autores”.

Tudo igual ao que se viu após o golpe do golpe do AI-5 de 1968, que jogou o país nas profundezas da ditadura militar, sem disfarce.

Devagar, devagarinho, o governo afia suas garras para dominar novamente as instituições e implantar o controle militar, agora também evangélico, na produção cultural.

Quando vamos ver, se ninguém fizer nada, como alertou hoje meu colega Miguel Paiva, no Brasil 247, voltaremos àqueles tempos sombrios.

O novo padrão deverá ser o daquelas novelas religiosas da Record TV, um dos braços do Sistema Bolsonarista de Televisão, também conhecido como SBT.

Serão proibidos temas considerados “desagradáveis” pelo capitão-presidente, como as questões de gênero, sexualidade e sobre o período da ditadura militar _ que, segundo Bolsonaro, nunca existiu.

Até o espetáculo infantojuvenil “Abrazo” já foi proibido pela Caixa Cultural porque tem personagens que vivem num país em que não podem falar.

E não poderão falar mesmo, com a criação da censura da Caixa, já adotada também por outras estatais e empresas privadas, temerosas de perder as benesses do governo.

Em marcha batida para o atraso, o governo enfrenta poucas resistências da chamada sociedade civil.

Na mesma edição, a Folha noticia na Coluna “Painel” que o grupo 342 Artes pediu a seus participantes para “judicializar tudo, dar queixas no Ministério Público Federal e provocar as instituições a se manifestarem”. Mas as instituições estão mesmo funcionando, como dizem?

A associação de roteiristas foi escalada para fazer representações contra Roberto Alvim, da Funarte, aquele alucinado que outro dia chamou de “sórdida” a Fernanda Montenegro, e anunciou a entrega do teatro Glauce Rocha, no Rio, ao grupo evangélico Companhia Jeová Nissi.

A maracutaia era tão escandalosa que, na sexta-feira, 19 funcionários da Funarte foram demitidos pelo ministro Osmar Terra, da Cidadania, a quem Bolsonaro entregara o espólio do extinto ministério da Cultura.

Funcionário de terceiro escalão, Alvim passou a tratar diretamente com o presidente Bolsonaro e queria entregar uma verba de R$ 3,5 milhões à própria mulher, a atriz Juliana Galdino, para cuidar da “revitalização de teatros”, mas o projeto foi barrado.

Ao ser nomeado, o ministro Terra, com quem Alvim bateu de frente, confidenciou candidamente que sua única experiência anterior nesta área cultura era tocar berimbau.

É a este tipo de gente que foi entregue a cultura nacional, que está sendo estrangulada aos poucos, com o corte de verbas públicas e privadas, e constantes ameaças aos produtores independentes.

Para Bolsonaro, como ele vinha dizendo desde a campanha, cultura é “coisa de comunistas” e tem que ser tratada na base de porrada.

Daqui a pouco, salas de cinema e teatro serão transformadas em extensões de templos evangélicos, que em vez de ingressos certamente cobrarão dízimos. Ajoelhou, tem que rezar.

Nada acontece por acaso: o ataque à Cultura faz parte de um projeto maior, o único programa de governo apresentado até agora pelo bolsonarismo: a destruição do país.

Bom fim de semana.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho

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farnesio

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Petrolinense/Juazeirense de Arapiraca-Alagoas, é radialista com passagens pelas Rádios Jornal do Comércio de Garanhuns e Petrolina, Novo Nordeste de Arapiraca, Emissora Rural, Grande Rio AM e FM de Petrolina, Radio Cidade, Nova Indy e atualmente é âncora do Programa Bastidores da Notícia na Rádio Tropical SAT/FM de Juazeiro e editor do BlogQSP.