Artigo

Um imortal baiano- João Gilberto, 80 anos

Luis Ganem

Nesses anos de meio artístico muita coisa já vivi, fiz e vi. Olha não estou querendo ser repetitivo, mas alguns momentos históricos que passei vejo hoje com orgulho. Como por exemplo ver os primeiros blocos e trios virem para a Barra ou ver o cheiro de amor na época com Márcia Freire, ser objeto de todo um Globo repórter.

Vivenciei em alguns momentos os fatos com olhos de puro fã e admirador, e em outros como observador ocular e entusiasta da nossa cultura e do reflexo dela nos quatro cantos do globo terrestre. Mas um fato que não posso deixar de falar e que me perdoem aqueles que independente do que eu acho não concordem comigo, é que se nossa música, nossa gente, nossa cultura e a nossa Bahia seja em que ritmo for tem o reconhecimento que merece hoje no Brasil e no mundo, se deve em muito aos que em algum momento lá atrás revolucionaram a música na sua forma, no seu jeito, e que deixaram fincado para a eternidade a sua genialidade incomum colocando no mapa a nossa Bahia.

 

Desculpem estar sendo rebuscado no meu texto essa semana, mas depois de quarenta anos de vida mais uma vez tomei uma porrada na cabeça, e desta vez o nome da porrada é João Gilberto Prado Pereira de Oliveira ou simplesmente João Gilberto (risos!).

 

Não que nunca tivesse ouvido falar nele, ou nunca tivesse tido acesso as suas interpretações, nada disso. Apenas desta vez ao ver se aproximar o seu aniversário de oitenta anos de vida resolvi voltar a ouvir sua obra novamente e PIMBA! Fiquei embasbacado de tão maravilhado com a música dele de uma forma tão absurda que nestes últimos dias até dormindo, tenho ouvido João Gilberto.

 

O legal disso tudo é que descobri uma vivacidade diferente nesta minha nova pesquisa da obra e vida do Baiano de Juazeiro João Gilberto. Tirando o jeito inquieto, o gesticular nervoso vindo da personalidade perfeccionista, sua intolerância ao som ruim, aos toques de celulares nos shows, plateias cochichando ou o barulho do ar-condicionado (risos!) descobri em João um cara apaixonado pela sua terra, pela minha Bahia, e que tenho certeza, nunca deixou de amá-la.

 

E amigo, a porrada foi mais forte ainda quando parei para ouvir “Bahia com H”. Olha gosto de todas as interpretações e obras dele. Do grandes sucessos “chega de saudade” e “desafinado”, a um dos melhores discos de jazz de todos os tempos “Getz/Gilberto” feito a três mãos com o jazzista Stan getz e Tom Jobim entre muitas coisas Mas, “Bahia com H”, me tirou do sério.

Acredite, essa composição de Denis Brean (jornalista, compositor e radialista paulista falecido em 69) reflete o quanto se pode ter amor por uma terra e seus encantos mesmo sem ser baiano. E ouvindo cantada por João Gilberto não haveria outra coisa a fazer a não ser reverenciar.

 

Alguns trechos de “Bahia com H” como: “Deixa ver, com meus olhos de amante saudoso a Bahia do meu coração / Deixa ver, baixa do Sapateiro Charriou, Barroquinha, Calçada, Tabuão” Ou ainda: “Deixa ver, teus sobrados, igrejas, Teus santos, ladeiras, e montes tal qual um postal / Dá licença de rezar pro Senhor do Bonfim”. São tão sinceros, tão honestos, e soam tão verdadeiros que a emoção é o único sentimento presente e possível ao ouvi-lo nesta hora.

 

Olha pra falar mais profundamente sobre esse ícone da música baiana, brasileira e Mundial teria que fazer um especial de uma semana nesta coluna. É complicado defini-lo em uma única forma, em uma única palavra. Mas em sendo esse o único jeito aproximado do que se possa dizer ou falar de João Gilberto, Gênio, é o adjetivo que chega mais perto da definição sobre ele.

 

Salve João pelos seus oitenta anos. Um salve da sua “Bahia imortal” e dos seus filhos da nova música baiana que nela habitam.

 

“Eu fico contente da vida em saber que Juazeiro, a Bahia, João Gilberto, tudo isso é Brasil!”

 

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