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Os 80 anos do Rei

Com 140 milhões de discos vendidos e uma carreira que ultrapassa as fronteiras do Brasil, Roberto Carlos celebra o aniversário longe da aposentadoria: ele planeja uma turnê mundial em 2022 e um filme sobre a sua vida

Crédito: Divulgação

MAJESTADE Roberto Carlos: de ídolo da juventude a porta-voz das emoções de um País (Crédito: Divulgação)

Felipe Machado –

Lançamento
“Roberto Carlos – Por Isso Essa
Voz Tamanha” Jotabê Medeiros
Ed. Todavia
Preço: R$ 84,90

Apesar de tudo, o Brasil é um país de sorte: temos a liberdade de escolher a nossa própria realeza. De Pelé, rei do futebol, a Xuxa, rainha dos baixinhos, cada soberano governa para uma corte específica. Há, no entanto, apenas um monarca que fala o idioma de todos os brasileiros: sua majestade, Roberto Carlos.

Para entender como o garoto capixaba de Cachoeiro do Itapemirim tornou-se o maior ídolo do País é preciso lembrar sua trajetória. Ao contrário do que muitos pensam, nada veio fácil na vida de Roberto Carlos. Após um acidente de trem que atingiu parte de sua perna direita, passou a infância se dedicando à música: estudou piano e violão, aprendeu a cantar. Aos 14, veio a epifania: ouviu Elvis Presley e decidiu que seria súdito do rei do rock. No ano seguinte, mudou-se para Niterói, no Rio de Janeiro, e montou o conjunto The Sputniks com Tim Maia. Apadrinhado por Carlos Imperial, investiu em uma carreira solo que demorou a dar frutos. Passou anos entre programas de auditório e pequenos shows pelo país, viajando de fusquinha com o baterista/motorista Dedé. Na época, conheceu seu grande amigo de fé e irmão camarada, Erasmo Carlos, parceiro inseparável até hoje e co-autor de sucessos como “Emoções” e “Além do Horizonte”.

O primeiro álbum foi lançado em 1961, mas a inspiração no ídolo João Gilberto foi um fracasso. O sucesso só veio com o segundo disco: “É Proibido Fumar” e “Calhambeque” tocaram tanto nas rádios que a Record o convidou para apresentar o programa “Jovem Guarda” ao lado de Erasmo e Wanderléa. O sucesso na TV foi imenso. Garotas cercavam o teatro para tentar tocá-lo, fenômeno semelhante ao que acontecia no resto do mundo com os Beatles. “Quero que vá Tudo Para o Inferno” foi uma letra tão polêmica que ele deixou de ser um cantor para tornar-se um ícone da juventude, uma personificação da atitude rebelde vigente na época. Canções mais politizadas ganharam espaço, mas Roberto foi na contramão. No ano do temível AI-5, venceu o prestigiado Festival de San Remo com “Canzone per Te”, balada romântica que definiu seu estilo e abriu as portas para uma carreira no exterior – mais tarde ele atingiria o estrelato cantando em espanhol, italiano e inglês. Mais maduro, o cantor de Iê-iê-iê não queria saber do sistema político do Brasil, mas dos sentimentos dos brasileiros. Como ele, os jovens começaram a se casar, constituir famílias. Não queriam mais apenas frequentar festas de arromba ou descer a Rua Augusta a 120 por hora.
Roberto compreendeu o momento e lançou, em 1971, um disco de soul music à brasileira. Cantando sempre em primeira pessoa, estilo que o aproximava do público, aprendeu a projetar sua voz de barítono com mais emoção e interpretar as letras com maior profundidade. Apostou em canções como “Detalhes”, “Se eu Partir” e “Amanda Amante”, e o disco explodiu. Ao mesmo tempo, a fama lhe rendia acusações de alienado, por falar de amor enquanto o País estava sob a ditadura. Os fãs se dividiram: enquanto a elite das universidades idolatrava os asilados e exilados Chico Buarque e Caetano, Roberto conquistava cada vez mais o público geral. Era uma disputa falsa, até porque o único artista a visitar Caetano no exílio, em Londres, foi Roberto. Na volta, em homenagem ao tropicalista, compôs “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, preconizando o retorno do amigo.

JOVEM GUARDA Erasmo Carlos, Wanderley Cardoso, Eduardo Araújo, Martinha, Wanderléa e Roberto (agachado): programa de TV e impacto na juventude brasileira dos anos 1960 (Crédito:Divulgação)

Nova biografia

“Ele é amado pelas classes mais altas, mas sempre manteve ressonância entre os mais humildes”, afirma Jotabê Medeiros, autor da recém-lançada biografia “Por Isso Essa Voz Tamanha”. “Ele é um homem do povo. Sua mãe era costureira, trabalhava numa fábrica. Tem origem humilde e nunca se afastou disso. Além de Erasmo, que foi o grande parceiro, fazia questão de gravar composições de gente simples, como Getúlio Cortes, Pilombeta, Nenéo e Helena dos Santos, que era empregada doméstica. Foi o primeiro grande artista a refletir sobre a juventude mais pobre.” Para Medeiros, a popularidade da Jovem Guarda ampliou seu impacto cultural. “As pessoas imitavam seu jeito de falar e de se vestir.” Nos anos 1990, a acomodação foi natural. “Ele voltou a ser intérprete, como Frank Sinatra e Tony Bennett, artistas de quem é fã”, diz Medeiros.

Roberto sempre teve sensibilidade para entender o Brasil. Cantou o meio ambiente bem antes de o assunto virar moda, valorizou as gordinhas, homenageou os caminhoneiros. E nem pensa em se aposentar: em 2022 quer fazer shows no Brasil, México, EUA e Europa, além de um filme sobre sua vida dirigido por Breno Silveira – tudo isso, claro, se a pandemia deixar. Anunciou um dueto com a cantora Liah Soares na próxima novela da Globo e disse que está escrevendo novas canções.

Em material distribuído por sua assessoria, Roberto falou sobre o aniversário e disse que sente falta dos shows. “Sinto falta do palco, das luzes e, principalmente, da plateia. Mas isso vai passar e daqui a pouco a gente está de volta.” Nos tempos de coronavírus, valorizou a vacina: “A ciência é que pode orientar o povo. Me vacinei, estou mais tranquilo, mas mantenho os mesmos cuidados.” Em relação ao aniversário, disse que se sente com menos idade do que tem. “Sou um cara com muitos sonhos aos 80 anos”, disse, e foi honesto sobre o TOC (transtorno obsessivo compulsivo), enfermidade emocional que o aflige há anos. “Uma das coisas do TOC é a higienização, lavar as mãos, essa coisa toda. Isso, logicamente, ficou mais rigoroso. Mas não estou curado do TOC totalmente, não. Ainda tem muita coisa, estou tentando, estou lutando.” Roberto contou que gosta de tomar sorvete enquanto assiste ao BBB. Se tem algum arrependimento nesses 80 anos? “Sim, por algumas coisas que não fiz, e outras poucas coisas que fiz.” Ele não entrou em detalhes, mas nem precisa: se chorou ou se sorriu, o importante é que emoções ele viveu – e continuará vivendo.

ENTREVISTA
Wanderléa, cantora

“Roberto é o nosso condutor”

Por que Roberto Carlos é o rei?
São mais de 50 anos de sucesso ininterrupto. Ele criou um gênero próprio, não há outro intérprete igual.

Vocês já sentiam que ele era especial na época da Jovem Guarda?
Sim, ele já era diferente de todo mundo. Sempre foi muito simples, natural, mas tinha uma perseverança e visão que já chamavam a atenção, além de um amor incondicional à música.

Divulgação

Qual foi a influência que a Jovem Guarda teve no público brasileiro?
O movimento inspirou os jovens a terem mais independência. A sociedade brasileira era muito tradicional, os pais escolhiam até as roupas que os filhos iam vestir. Marcou o início de um mercado voltado para o público jovem.

Como era o Roberto no dia a dia?
Uma pessoa muito boa. Na época de “Quero que você me aqueça nesse inverno”, organizamos uma campanha e arrecadamos milhares de agasalhos.

O que pensou quando ele adotou um estilo mais romântico?
Foi natural, éramos jovens e muito ingênuos. Ele ganhou um impulso internacional muito grande após vencer o festival de San Remo.

Você ainda tem contato com ele?
Claro, somos amigos inseparáveis. Sou fã da sua trajetória, da sua dignidade. Roberto é o nosso condutor.

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farnesio

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Petrolinense/Juazeirense de Arapiraca-Alagoas, é radialista com passagens pelas Rádios Jornal do Comércio de Garanhuns e Petrolina, Novo Nordeste de Arapiraca, Emissora Rural, Grande Rio AM e FM de Petrolina, Radio Cidade, Nova Indy e atualmente é âncora do Programa Bastidores da Notícia na Rádio Tropical SAT/FM de Juazeiro e editor do BlogQSP.